Segundo ele, “o que dava um aval para a arte antes eram as instituições. Hoje as galerias determinam o que vai para os museus”. Impossível discordar de Iran, todos sabem que as galerias ditam as regras do mercado. O que me chama a atenção é o fato de sua exposição ter sido aberta uma semana após o término da Arco, feira de arte em Madrid onde o artista vendeu sete obras, a mais cara delas por US$ 60 mil como lembra o repórter Silas Marti do jornal Folha de São Paulo. O que não consigo entender é se ele protestou por ter vendido, ou por ter vendido pouco. Cabe lembrar que a Bienal vem aí com um de seus andares vazio. Coincidência?
Como já dizia Theodor Adorno “na sociedade contemporânea, as produções do espírito já não também mercadorias como o eram outrora, mas tornaram-se integralmente mercadorias, isto é, são inteiramente orientadas – da concepção à apresentação – pelo regime do lucro“(1995,p.237). A arte como forma de expressão maior do espírito humano perde o sentido as se submeter ao mercado. Não apenas a “obra”, mas também os artistas se tornam produtos da industria cultural. O que acontece é que a arte é desartizada e se transforma em peça de um jogo que é contrario a seu próprio princípio (2001,p.129). Não quero de forma alguma dizer que os artistas não devem vender suas obras, pelo contrário, apenas que o lucro não deve ser o motivo da produção artística.
Suponho que os artistas se submetam devido a necessidade de sobreviver no mercado, o que acontece dentro de um processo histórico. Chabrun diz que no século XVIII “…para vencer é necessário pertencer a uma família de pintores. O meio profissional deve confundir-se com o familiar, se quiser aproveitar de uma maneira normal, os privilégios que a prosperidade de um atelier asseguram” (1974,p.38-40). Velázquez se casou com a filha de seu mestre Pacheco, Goya com Josefa, irmã de Bayeu que por sua vez era protegido me Mengs. Naquela época os artistas se casavam para assegurar sua posição no mercado. Hoje estas relações são um pouco diferentes. Creio que ainda hoje se possam encontrar artistas como Van Gogh e Gauguin, capazes de abandonar tudo para se dedicar a arte.
Todavia, o caso de Iran do Espírito Santo é apenas um exemplo do que ocorre em nossos dias. Um artista que é o mercado protestando contra o próprio mercado!
Como disse Adorno a autonomia da obra de arte é de vez abolida. Sendo assim, só nos resta buscar uma saída, mas qual seria ela?
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_____.Prismas. Critica cultural e Sociedade. São Paulo: Editora Ática. 2001
CHABRUN, J, -F. Goya. Lisboa: Editorial Verbo. 1974
MARTI, S. Em protesto, artista esvazia galeria. Folha de São Paulo. São Paulo, 23 fev.
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Nesta tarde de carnaval entediante, procurando imagens de meu próprio trabalho na internet, me deparo com o texto acima, e não poderia deixar de postar meu comentário.Por hora o único.
Achei mesmo ofensivo que tenha me “subjetivado” como “O mercado”- me poupe por favor! Se o Sr. quer dizer que meu trabalho é comercial, devo discordar, mas tens todo o direito. Mas sugerir que quem vende não tem direito de se incomodar com o domínio do mercado, me parece ingênuo ao extremo. Desta forma toda a canção de protesto jamais poderia ser gravada e comercializada…e a ninguem chegaria! Ingênuo também é acreditar em tudo que se lê nos nossos jornais. Nossos pouco preparados jornalistas dão toda a ênfase neste mercado, legitimando-o ao maxímo ao publicar preços de trabalhos como se isso fizesse parte do conteúdo das obras. Meu conselho para o Sr. autor desse texto: seja mais esperto e procure se informar melhor da próxima vez.Por exemplo: o projeto da exposicão En Passant existia muito antes do tema da Bienal ser de meu conhecimento e é um desenvolvimento claro e lógico de meu trabalho anterior( O Sr. a viu? Leu outras matérias, etc?). É fácil julgar e condenar, assim como citar Adorno à revelia…